Cao D'agua Portugues - Portuguese Water Dog

Os cães de água, uma raça portuguesa única, sobreviveram à extinção. Dois deles vão entrar agora para os Fuzileiros...
Fonte: Semanal Expresso
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São uma força de trabalho especializada, mas há anos que estão desempregados. O declínio da pesca artesanal ditou o desaparecimento dos seus postos de trabalho e só agora se vislumbra um novo emprego. Outrora os melhores amigos dos pescadores, os cães d?água portugueses sobreviveram à ameaça de extinção, tornaram-se animais de companhia, e vão agora receber formação profissional para voltarem a ocupar um lugar de destaque, desta feita na Marinha: a difícil missão de procurar afogados.

Dois cachorros, com cerca de seis meses, devem ingressar esta semana na Escola de Fuzileiros, no Alfeite, para, dentro de meses, frequentarem um curso dado por espanhóis que os dotará de uma aptidão única em Portugal - detectarem cadáveres afogados nas águas portuguesas. O projecto é do comandante da Escola de Fuzileiros, Rocha e Abreu, 55 anos, há muito tempo um defensor da raça do Cão de Água Português. Esta é a segunda vez que Rocha e Abreu pretende que esta raça confira à Marinha uma capacidade inovadora, depois de há uns oito anos ter mandado dois cães d?água serem treinados pela GNR para cheirar droga. «Deram excelentes resultados», recorda, de tal modo que continua a haver duas cadelas preparadas para aquele efeito.


Em 2001, quando foi necessário virem cães da Holanda para ajudar nas buscas dos cadáveres da tragédia de Entre-os-Rios, Rocha e Abreu pensou que esta seria uma função à medida dos cães d?água, dadas as características únicas desta raça portuguesa, como possuir membranas interdigitais (idênticas às dos patos), nadar com os quatro membros - e não apenas com os dianteiros - e mergulhar em apneia, isto é, sem respirar. A esta extraordinária capacidade para nadar, só ultrapassada, dizem os estudiosos da raça, pela da lontra, junta-se uma grande sensibilidade visual e olfactiva. «Não conheço outro cão que mergulhe vários metros para ir buscar objectos», afirma o comandante da Escola de Fuzileiros.

«Só aguardamos que o Estado-Maior da Armada atribua uma verba para os cães fazerem o curso de detecção de afogados», refere, acrescentando que actualmente não há qualquer orientação superior quanto ao que se pretende do canil da Escola de Fuzileiros, razão pela qual está a funcionar nos «mínimos», apenas com dois exemplares de Castro Laboreiro e um de Retriever do Labrador.


DOS DESCOBRIMENTOS À PESCA





No canil do Parque Natural da Ria Formosa continuam a nascer cães de água portugueses, hoje para manter a tradição, no passado para evitar a extinção da raça

A instituição chegou, porém, a ter uma dúzia de cães d?água, quando a raça corria o risco de desaparecer e Rocha e Abreu decidiu que os Fuzileiros deviam ajudar à sua preservação, tanto mais que tinham uma curiosidade quase natural por estes cães por saberem que eles iam nas naus e caravelas durante a época dos Descobrimentos, e em pesqueiros, principalmente no Algarve. «Como tinham sido construídos canis na escola e fazia-se criação de cães, por que não criar o Cão de Água?»

Em 1979 foi adquirido um casal e, na década seguinte, embarcações emblemáticas, como os navios-escola «Sagres» e «Crioula», juntaram cães d?água às suas tripulações, «por uma questão de representação e divulgação de uma raça que é um património nacional». E a componente de segurança e alerta naturalmente começou a ser assegurada pelos animais.


Nos barcos de pesca as tarefas eram mais especializadas: desde encaminhar cardumes até levar cabos entre as embarcações, passando pela recuperação de peixe - intacto - que caía das redes, até fazerem de estafetas, transportando mensagens ou objectos entre os barcos. Como qualquer membro da tripulação recebiam o seu salário: uma «teca» de peixe.

Utilizados em larga escala há 40 anos, estes cães foram sendo ultrapassados pelos avanços tecnológicos, até que, há dois, três anos, morreu o último cão de água português a andar na faina. Em contrapartida, aquela que foi considerada a raça mais rara pelo Livro Guinness dos Recordes na década de 70, quando havia apenas cerca de 30 exemplares, está em expansão. A ameaça de extinção foi afastada há cinco anos, altura desde a qual tem havido cerca de 200 novos registos anuais no Clube Português de Canicultura.


CARTÃO DE VISITA




A outra instituição pública que teve um papel fundamental na recuperação do Cão de Água foi o Parque Natural da Ria Formosa. Construído em 1989, o canil de Olhão é mantido por «tradição e como cartão de visita do parque», como explica Daniel Santos, 47 anos, o vigilante da natureza desde sempre responsável pelo canil. Explica que os cães têm de ser vendidos, mas o preço, 350 euros, é ali muito inferior ao praticado pelos criadores, normalmente acima dos mil euros e chegando a atingir o dobro nos Estados Unidos. Aliás, sublinha Daniel Santos, «apesar de ser uma raça portuguesa, os estrangeiros atribuem-lhe mais valor e os criadores nacionais vendem mais para fora do país». A verdade é que acabou por ser nos Estados Unidos, e pela mão de duas criadoras norte-americanas, que se iniciou a recuperação da raça, em finais dos anos 60.


Nasceu há cerca de um mês a segunda e última ninhada deste ano no canil do parque, quando, no período crítico para a raça, chegavam a ser seis por ano. Ali vivem cinco machos e quatro fêmeas com idades entre os dois e os oito anos. Yuki foi a cadela de dois anos que deu à luz dez crias, seis machos e quatro fêmeas, cinco pretas e cinco castanhas. O pai é o Fundão, que aos oito anos é o mais velho da matilha.

As crias vão permanecer no canil durante, pelo menos, três meses, altura em que já poderão ser separadas da mãe e dos irmãos. Ou então, poderão ficar mais tempo para serem treinadas, como um cachorro com oito meses, ainda sem nome, e que tem casa à espera em Lisboa.

Texto de Isabel Lopes

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